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terça-feira, 7 de maio de 2019

Por que não creio "no Batismo com o Espírito Santo" como é pregado hoje.

Não vou aqui fazer uma introdução bonita nos moldes do que chamo "estilo americano" [1] ou como os jornalistas gostam de fazer em suas matérias. Se você veio até aqui você já sabe a história do pentecostalismo e está familiarizado com o debate acerca do batismo com o Espírito Santo. Vamos direto ao assunto.

Então o termo "batismo com Espírito Santo" é muito utilizado para descrever o que chamam de "segunda benção" ou um "enchimento do Espírito Santo". Quando confessamos que Jesus é o Senhor, ele nos sela com o Espírito Santo (Ef. 1:13-14), e o Espírito Santo passa a habitar em nós (1 Co 6:19), mas para os pentecostais há ainda uma segunda vinda do Espírito Santo que te encherá de uma maneira sobrenatural e a única forma de saber que você recebeu esse segundo enchimento do Espírito é falar em línguas [estranhas]. Eles tomam como base o livro de Atos, onde de fato, vemos em três ocasiões pessoas falando em línguas e profetizando após o recebimento do Espírito. Porém, vale ressaltar que o livro de Atos é um livro cujo estilo literário é conhecido como descritivo, pois ele narra uma história, ou seja, sequência de eventos e não tem como objetivo ser uma norma, como é o caso das epístolas, mas os irmãos passaram a dizer que Atos é sim uma narrativa. Em outra parte eu vou descrever as dificuldades que tenho com esse pensamento.
Fora o livro de Atos, nós vemos esse assunto sendo tratado na primeira carta de Paulo à igreja de Corinto, que de fato é um livro normativo. Mas antes de entrar na carta aos coríntios eu quero descrever aqui rapidamente sobre as ocorrências do livro de Atos.

Em Atos 2:4 lemos pela primeira vez do fenômeno falar em línguas, já aqui temos muitos argumentos acerca da natureza dessas línguas; uns dizem que são línguas estranhas e outros que são línguas humanas. Não vou entrar nessa disputa, apenas vou falar dos objetivos de cada relato. Aqui temos o dia de Pentecostes, muitos peregrinos vindo para Jerusalém, uma boa oportunidade para de forma eficiente falar de Jesus Cristo. Foi por isso que o Senhor antes de subir aos céus falou para que ficassem em Jerusalém (At 1:4) para que no dia certo eles fossem usados para proclamar às boas novas de uma forma sobrenatural.

Chegado o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar (v. 1) e eles foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas (v. 3-4) de forma que os peregrinos que vinham para Jerusalém ouviam em suas próprias línguas (v. 8). Pedro depois de explicar tudo o que aconteceu, muitos foram convertidos (v. 41). Como vemos aqui as línguas tinham um objetivo de proclamar as boas novas, como que um judeu iria falar de Jesus para um medo sem saber falar a sua língua? E também serviu de um sinal externo, um poder sobrenatural, que só podia ser de Deus. O fato é que Jesus antes de partir falou-lhes que eles receberiam poder do Espírito [tão somente] para servirem de testemunhas de Cristo. (v. 8).

Agora vamos para outra parte muito usada: a oração de Pedro e João e o recebimento do Espírito pelos Samaritanos. Sabemos que após o dia de pentecostes a coisa ficou estreita para o lado dos apóstolos devido as perseguições. Enquanto os Apóstolos ficaram em Jerusalém (v. 8:1) e os outros discípulos saíram anunciando o evangelho. Através da pregação e realização de sinais e prodígios de Felipe em Samaria, muitos creram e isso chegou até os ouvidos dos apóstolos que foram até lá conferir, aí chegamos na parte onde Pedro e João impondo as mãos nos novos convertidos, eles recebiam o Espírito Santo. Aqui não vemos manifestação sobrenatural, porém pelo fato de Simão o mágico ter mostrado interesse em "adquirir" esse dom de fazer com que recebessem o Espírito Santo, dá a entender que houve uma manifestação sobrenatural, eu até concordo com isso, mas vamos entender o motivo pelo qual João e Pedro foram enviados e porque eles não haviam ainda recebido o Espírito Santo. Note também aqui que não é usado o termo "batizado com o Espírito Santo".
Quem conhece de bíblia sabe da rixa dos judeus com os samaritanos que remonta a época dos Reis, e isso fica evidente em Lucas 9:51 quando João perguntou pra Jesus se este queria que eles [João e Tiago] mandasse descer fogo do céu para consumir os samaritanos, remontando ao episódio de Elias e os israelitas quando Elias mandava descer fogo e os consumia. Então era preciso que João visse que o evangelho era também para os samaritanos e não somente para os judeus, e qual outra forma de provar para ele que os samaritanos também estavam no plano de Deus senão uma experiência in loco? Por isso João foi com Pedro. 

Olha que interessante agora, logo mais Felipe prega para o eunuco e não vemos nenhum relato do eunuco falando em línguas ou profetizando!

Agora vamos para Pedro na casa de Cornélio e a inclusão dos gentios no capítulo 10. Os judeus não podiam nem ficar perto de um gentio (At 10.28) que dirá imaginar que eles estavam inclusos no projeto de Deus, embora Jesus já tivesse lhes falado que eles [os apóstolos] seriam testemunhas até os confins da terra (At 1.8). Então Pedro está lá, falando das coisas de Deus e de repente o Espírito Santo cai sobre todos os que estavam ouvindo as palavras de Pedro e estes começam a falar em línguas e a profetizarem (v. 44-46), o que foi isso senão Deus falando para Pedro que os gentios também estavam no projeto de Deus? Agora vamos nos atentar as palavras do próprio Pedro quando ele diz "pode alguém recusar a água [batismo com água], para que não sejam batizados estes que, assim como nós, receberam o Espírito Santo?" (v. 47). Está nítido aqui o objetivo dessa manifestação sobrenatural.

Até agora podemos notar um padrão: onde houve manifestação de línguas, o número de fieis presente era superior a um e vou explicar o porquê da relevância dessa informação. Lembra que após a pregação de Felipe em Samaria ele pregou para o eunuco? Pois é, ele não precisou de uma experiência sobrenatural para crer no Senhor Jesus. Outra prova de que os sinais e prodígios serviam para testemunhar que Cristo era o Caminho está na cura de Enéias. Pedro vendo Enéias que há anos era paralítico, falou "Enéias, Jesus Cristo te cura! Levanta-te e arruma o teu leito." (At 9:34) e qual foi o resultado desse prodígio realizado por Pedro? Lemos em seguida "Viram-no todos os habitantes de Lida e Sarona, os quais se converteram ao Senhor." (v. 35). Não precisou de ninguém falar em línguas para que eles se convencessem de que Jesus é o Senhor e se converteram. 

Agora vamos para o último relato do livro de Atos sobre manifestação de línguas, no capítulo 19. Paulo vendo uns discípulos pergunta se eles haviam recebido o Espírito Santo e estes lhe responderam dizendo que nem sabiam o que era esse tal Espírito Santo, dando a entender que eles eram discípulos de João e não ouviram o sermão de João Batista acerca do Batismo de Jesus (Mt 3:11-12). Então Paulo impondo-lhes as mãos estes recebem o Espírito Santo e começam a falar em línguas e a profetizar, servindo de sinal de uns para os outros.

Outro caso de muita confusão é acerca da menção do "batismo com o Espírito Santo" mencionado por João e que muitos inferem o segundo batismo a esse termo. Mas isso não pode ser entendido dessa forma, pois ao fazer isso, estaremos ignorando a regra de ouro da interpretação bíblica: o contexto. Pois em Mateus 3:11 quando João compara o seu batismo [do arrependimento] com o batismo do Senhor Jesus dizendo que o batismo de Jesus é com o Espírito Santo, ele está apenas dizendo que ao confessarmos Jesus como nosso Senhor recebermos o Espírito Santo que é o penhor de nossa herança (Ef. 1:13-14), tanto é que João não apenas menciona o batismo com o Espírito Santo mas fala do batismo com fogo e que muitos irmãos ignorando o verso doze afirmam que o fogo é um fogo bom, ora, se João menciona dois batismo no verso onze e no verso doze ele usa dois objetos para descrever a consequência: o trigo (b. Espírito Santo) é recolhido no celeiro e a palha (b. fogo) jogada no fogo, não podemos dar outro significado aqui ao fogo senão ao fogo do juízo. Dizer que o fogo é um fogo bom, purificador é um erro grotesco. Eu nunca vi palha ser purificada por fogo. Se jogarmos palha no fogo ela simplesmente desaparecerá.

Agora que desmistificamos os relatos do livro de Atos acerca das experiências com línguas, vamos para a norma, que é onde esse tema deveria ser tratado.

Em 1 Co 12,14 Paulo trata acerca dos dons espirituais. Pelo teor da carta, subentende-se que os irmãos de Corinto estavam dando um valor muito grande ao dom de línguas, pois há muitas menções ao dom de línguas entre os capítulos doze até o quatorze.
Eu quero chamar a atenção para a seguinte questão: ao dizer que (1) há dois batismos distintos e (2) que a única evidência de que o crente foi "batizado com o Espírito Santo", os irmãos estão inconscientemente afirmando que para eu receber qualquer outro dom (palavra de sabedoria, palavra do conhecimento, profecia) eu teria que obrigatoriamente falar em línguas, caso contrário eu não tenho como provar que fui "batizado". E isso é um absurdo, uma vez que os dons são para a edificação da igreja (1 co 14:4) e também serve para testemunhar a presença de Deus (1 co 14:25). Ou seja, só quem pode contribuir com a obra é quem tiver sido "batizado com o Espírito Santo"? 

Vamos para o versículo mais óbvio que faz cair por terra essa tese de que a única evidência de que o Espírito Santo habita em nós é o falar em línguas, uma vez que não creio que haja dois batismos. Paulo diz "em um só Espírito, todos nós fomos batizados [...] E a todos nós foi dado beber de um só Espírito." Como que eu posso afirmar que só foi batizado quem fala em línguas se Paulo afirma que nem todos falam em línguas "São todos mestres? Ou, operadores de milagres? Tê todos os dons de curar? Falam todos em outras línguas?" (v. 30). Paulo aqui está usando de um recurso literário, uma pergunta retórica, a qual ele já tem a resposta. Se para você não está claro o suficiente, Paulo ainda diz "Eu quisera que vós todos falásseis em outras línguas" (1 co 14:5). Qualquer um que entenda um pouco de semântica vai concordar de que o "quisera" indica um desejo não realizado. Eu queria [quisera] ser rico. Ora se eu gostaria de ser rico, é sinal de que eu não o sou.

Eu até há pouco tempo não entendia o motivo dessa supervalorização do falar em línguas, pois acham que é um sinal de que é cheio do Espírito Santo, mas lendo as escrituras atentamente, pude notar de que isso não pode ser considerado como tal. Tanto é que Paulo diz que quem "profetiza é superior ao que fala em outras línguas" (v. 5). Então irmãos, vamos buscar os melhores dons, porque quem fala em línguas edifica a si mesmo mas o profeta edifica a igreja! (v. 3).

Para fechar esse debate sobre o livro de Atos, já que Atos é tido por alguns irmãos como uma normativa, por que então não vemos o apóstolo Paulo falando em línguas ao ser cheio do Espírito Santo? Só lemos que após ser batizado ele foi cheio do Espírito Santo. (At 9:17). A desculpa é que ele fala na carta aos coríntios que ele fala muitas línguas (1 co 14:18) apesar de achar que ele está falando e línguas humanas [Paulo era de Tarso, estudou em Jerusalém, que na época a língua era o Aramaico e ele teve que aprender Hebraico por causa da Tanak].

Vamos à questão: Atos narrativa descritiva ou normativa?
Para saber qual a diferença, dá uma pesquisada no Google, estou com preguiça de escrever sobre isso. Na internet podemos encontrar vários estudos a esse respeito, eu vou colocar algumas questões que encontramos no livro de Atos e que não vejo a aplicação das nos dias de hoje. Não estou dizendo que algumas lições do livro de Atos não sirvam para nós nos dias de hoje, não é isso, o que digo é que assim como a traição de Davi descrita num livro histórico não serve de exemplo para justificar uma traição, assim também deve ser com a abordagem ao livro de Atos.

1. Em Atos 5 lemos o triste relato de Ananias e Safira que por terem mentido ao Espírito Santo foram mortos. Primeiro acontece com Ananias (v. 3), após ser confrontado por Pedro Ananias cai morto (v. 4) e três horas mais tarde (v. 7) chega Safira, esposa do já finado Ananias e ela também mente e por este motivo cai morta (v. 10), temos dois casos de uma punição grave por um pecado que parece ser tão comum; mentira (Ef. 4:25). Você já ouviu algum testemunho de algum irmão que foi morto pelo Espírito Santo por ter mentido? Eu não.

2. Temos lido muitos relatos de irmãos sendo cruelmente assassinados por pregarem o evangelho em Países onde a perseguição ao cristianismo é ferrenha. Em Atos 5:18-19 após terem sidos presos, um anjo do Senhor abre as portas do cárcere e liberta os apóstolos. Eles estavam somente presos e foram soltos por um anjo, porque não vemos esses anjos em ação protegendo os irmãos em perigo nas condições que citei no início do parágrafo?

3. Quando vamos pra igreja, aceitamos Jesus o batismo nas águas não é imediato, em algumas igrejas os novos convertidos passam por um discipulado, fazem cursos e por aí vai, em Atos 8 Felipe batiza o eunuco logo após pregar o evangelho pra ele, e o eunuco pedir pra ser batizado, devemos fazer assim nos dias de hoje?

4. O que dizer de Atos 12:23 quando um anjo do Senhor feriu Herodes por não haver dado Glória a Deus? Será se hoje podemos esperar isso nos dias de hoje?

5. Já ia esquecendo, quando Judas morreu e decidiram substitui-lo, eles lançaram sortes para escolherem Matias, seria esse um método a ser usado para escolher obreiros para a casa do Senhor? (At 1:26)

Por último, vale ressaltar que eu creio na continuidade dos dons espirituais. Não posso negar pois o Senhor já me proporcionou experiências sobrenaturais que eu seria um tolo se não cresse. 

[1] Sempre que busco alguma informação na internet e entro no site para ler o artigo, há uma grande introdução bem organizada, cheia de detalhes, fatos e dados. Confesso que as vezes é chato.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Lucas 3, Mateus 3, Marcos 1

Já analisamos os acontecimentos do nascimento tanto de Jesus quanto de João Batista em Mateus 1,2 e Lucas 1,2 e agora vamos para João Batista e o início do ministério de Jesus Cristo. 

Nos três evangelhos a história é contada basicamente em quatro partes: Pregação de João, Testemunho de Jesus, Tentação de Jesus no deserto e a volta para a Galiléia.

Então vamos estudar cada parte separadamente analisando cada evangelho simultaneamente.

Pregação de João Batista: Mc 1:2-6; Mt 3:1-6; Lc 3:1-6

No evangelho de Marcos podemos dividir a narrativa em três partes: (1) acerca das profecias sobre João Batista, (2) dos que estavam buscando o arrependimento e se batizavam e (3) acerca dos trajes de João e sua base alimentar. Suas vestes remontam ao profeta Elias que também vestia peles de camelo e ninguém pode dizer que João era rico, pois comia gafanhotos e mel silvestre.

Já o evangelho segundo¹ Mateus há um detalhe a mais. Mateus também menciona uma profecia messiânica, fala acerca dos que buscavam o arrependimento assim como registrado no evangelho de Marcos, bem como das vestes de João Batista e seus hábitos alimentares simples. Um detalhe a mais que temos é acerca dos fariseus e saduceus que vinham observar o batismo. Não vou falar aqui acerca do que é Saduceu e Fariseu para não ficar muito grande, há muitos bons estudos sobre esses grupos do judaísmo, estudos melhores até do que eu porventura poderia produzir. Mas vou comentar brevemente o que JB quis dizer nos versos 7-10. Quando comparamos os relatos de Mt 3:7 com Lc 3:7, à princípio dá a entender que os fariseus e os saduceus vieram se batizar pois em Lucas o texto diz que JB se dirigiu às multidões e não somente aos fariseus e Lucas sempre se refere às multidões (V. 3:7;10). Mas os comentaristas estão em acordo de que JB estava nesse caso falando com os fariseus e os saduceus². Os fariseus e saduceus achavam que só pelo fato de serem filhos de Abraão já estavam com sua salvação garantida e não precisavam desse arrependimento que João pregava. Arrependimento esse que tinha que ser verdadeiro, não somente dizer que se estavam arrependidos. Em Mateus João diz no verso 7 "produzi, pois, frutos dignos de arrependimento" o mesmo relato está escrito em Lc 3:8 mas Lucas trás detalhes que não encontramos em Mateus como vemos no verso 3:10 de Lucas o povo perguntando o que seria esse fruto do arrependimento quando eles falam "[...] que havemos, pois, de fazer?" e João lhes ensina dos versos 11-14 o que alguém com um coração contrito e arrependido deve fazer, como, repartir com os mais necessitados, não enganar os outros, etc (v.13).

João dá testemunho de Jesus Mt 3:11-12; Mc 1:7-8; Lc 3:15-17 (não falarei do relato de João 1:19-27)

Aqui vemos uma das passagens que mais trazem confusão, principalmente entre os pentecostais [que a propósito não são todos que concordam com essa interpretação] e reformados. Os pentecostais [não posso afirmar sem em maior número, mas de certo em grande número] interpretam a parte do fogo como um fogo bom, purificador, já os reformados, notadamente o Pr. Augustus Nicodemus ensina que esse fogo é o fogo do Juízo.
Vou explicar o porquê da confusão, na minha humilde análise a confusão se dá quando lemos o versículo fora do contexto, ou seja, ler o verso 11 de forma isolada sem levar em consideração o seguinte verso. Devemos lembrar que a bíblia não originalmente escrita com capítulos e versículos, credita-se essa organização de capítulos e versículos a Stephen Langton (1150 - 1228). Mas o que isso tem a ver com essa questão? Tem a ver com o fato de não havendo versículos para separar, diminui-se o risco do famoso "texto fora de contexto", pois não tinha nem como citar o versículo! E acredito que muitos ainda leem cada versículo como tendo um significado próprio, que não precisa do contexto geral para expressar sua ideia central. Então nesse caso temos que levar em consideração o verso 12 onde João segue sua narrativa dizendo que Jesus tem na sua mão a pá e recolherá o trigo no celeiro e queimará a palha no fogo. Se é um fogo "purificador", como ele vai purificar o que não existe? Uma vez que se você jogar palha no fogo, restará apenas um punhado de cinzas? Aqui o trigo representa os santos/crentes em Jesus e a palha são os ímpios/rebeldes (jo 3:36), ver Benson, Jamieson-Fausset-Brown, Barne's, Matthew Poole. Posso afirmar que quando os que leem o fogo como um fogo bom, têm em mente Atos 2:3 quando Lucas escreve sobre as "...línguas como de fogo", mas novamente eu acredito que essa é uma leitura muito superficial da perícope em que a palavra fogo se encontra em Mateus 3, e baseado nisso eu sou da opinião de que o fogo a que o texto se refere quer dizer a o fogo do juízo.

Dos relatos dos três evangelhos, Lucas conta que além de muitas exortações, João Batista falava sobre as maldades de Herodes [Antipas] e falava especificamente sobre Herodias, esposa do seu irmão que ele tomou como mulher. Aqui não é objetivo de Lucas dá um relato completo acerca da prisão de João, mais detalhes sobre a prisão e morte de João será contado em Mt 14:1-12.

O Batismo de Jesus Mt. 3:13-17; Mc 1:9-11; Lc 3:21-22

Os três relatos - não falaremos sobre o relato em João - trazem basicamente a mesma sequência: veio Jesus, João o batizou, o Espírito Santo desceu em forma de pomba e ouviu-se uma voz dos céus que dizia: "Este é o meu filho amado, em quem me comprazo."
Algo interessante que Mateus relata com um pouco mais de detalhes os eventos antes de Jesus descer nas águas. A cena deve ter sido muito linda quando João avistou Jesus, em João 1:29 João, o batista, pronuncia a famosa frase "[...] Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" e logo após Jesus vem ter com João (Mt 3:13). Aqui João indaga Jesus dizendo "Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?" Jesus não tinha pecado algum (1 Pe 2:22), então porque deveria ele se batizar se ele não tinha do que se arrepender? Vou deixar aqui o link de uma explicação do Pr. Augustus Nicodemus sobre o tema, ele consegue explicar com grande maestria. Clique aqui e tenha acesso ao vídeo do Pastor. Mas para resumir em poucas palavras, de acordo com o Pr., esse ato de Jesus se deixar ser batizado por João vindicaria a autoridade de João, ou seja, que ele foi de fato enviado por Deus para preparar o caminho para o Messias.


¹A forma comum ou tradicional de se referir aos evangelhos é dizer "Evangelho segundo fulano", porque segundo, porque o evangelho é as boas novas de Cristo e segundo é a quem a tradição atribui o autor, então quando dizemos "...segundo Mateus" estamos dizendo que foi Mateus quem escreveu esse relato da vida de Jesus. Isso não me impede, porém, de se referir aos evangelhos como livro de Mateus, evangelho de Mateus. Semanticamente falando é incorreto, pois a preposição de dá a ideia de pertencente a, mas me perdoem acaso eu escrever assim, o importante é que agora você entende a diferença e que você sabe que eu também entendo e que escrevo de forma proposital sem prejuízo ao significado.
²Ellicott, Benson

quarta-feira, 13 de março de 2019

Lucas 2, Mateus 2

Vou começar com uma pergunta: Os magos visitaram Jesus quando ele era recém-nascido?

Há fortes indícios que essa afirmação não seja verdadeira. Eu sempre acreditei que os magos [não sei porque falam que eram três e eram reis] visitaram Jesus na manjedoura, tanto é que nos filmes e desenhos essa cena é retratada dessa maneira. Mas as escrituras nos dão uma outra visão acerca dos fatos.

Primeiro, a bíblia é bem clara quando nos conta a respeito da visita dos pastores ao menino Jesus na manjedoura (Lc 2:15-18), porém quando é a vez dos magos, lemos em Mateus 20:10 que eles entraram na casa, não na manjedoura. Antes de continuar minha linha de raciocínio quero aqui falar sobre a tradição dos três [reis] magos, acredito que muitos acreditam que eram três pelo simples fato de terem trazido três presentes: mirra, incenso e ouro e que cada um havia sido dado por um mago distinto, mas isso a bíblia não nos conta, então fico só com "uns magos" mesmo e sem contar que a teologia trata de dar significados distintos a cada um dos presentes.

Outro aspecto interessante da união das duas narrativas [Luquinha e Mateus]. Primeiro o mais óbvio, em Mateus lemos no verso 7 que Herodes perguntou aos magos com exatidão o tempo que a estrela [que os guiava] aparecera e logo mais no verso 16, depois que Herodes se sentiu traído pelos magos e vendo que eles não regressariam pra Jerusalém, Herodes mandou matar todos os meninos de dois anos de idade para baixo "[...] conforme o tempo do qual com precisão se informara dos magos." Ou seja, se a gente for aplicar as técnicas de interpretação de texto aqui, claramente vemos que Jesus tinha dois anos de idade.

Outro ponto interessante. Os magos trouxeram ouro, e em Lc 2:24 os pais de Jesus ofereceram em sacrifício um par de rolas ou dois pombinhos, mas o que isto tem a ver com o todo? Bom, se formos na lei no livro de Levítico 12:6-8 vemos que nesse caso a lei manda levar um cordeiro de um ano de idade e uma pomba ou uma rolinha, mas no verso 8 diz que "se as suas posses não lhe permitirem trazer um cordeiro [se você for pobre], tomará então, duas rolas ou dois pombinhos [...]". Sendo assim, como eles não ofereceram um cordeiro, é porque eles não tinham condições, mas e o ouro? Se os magos tivessem levado o ouro eles poderiam ter comprado um cordeiro para levar para o templo, não é certo?

Verso 18 Todos os que ouviram se admiraram das coisas referidas pelos pastores. Imagine a seguinte cena: chega uma pessoa no seu departamento e diz: - Eu sou o nome gerente. Todos vão ficar espantados e vão provavelmente pensar: - Como assim? Ninguém nos avisou! Agora imagine que essa pessoa começa a dar ordens. Claro que alguém do departamento vai buscar saber se isso é verdade. Se de outra forma, chega alguém com uma autoridade maior, digamos um diretor ou o presidente da empresa e diz: - Este é o novo gerente. A coisa muda.
Imaginem agora, Maria diz: - Este menino é o Messias que tanto esperávamos! Vão achar que ela é louca, mas se chegam alguns pastores de onde ninguém sabe e todos dizem que este é o menino de que os anjos falavam, aí a coisa muda de figura.

A história de Simeão fala por si só, não há muito o que debater sobre essa passagem bíblica, a não ser o que está no verso 34 que é um pouco mais carregado de significados e remonta à algumas profecias messiânicas do livro de Isaías. Onde lemos "[...] o menino está destinado tanto para ruína [queda] como para levantamento [...]", queda fala do tropeço [condenação] daqueles em Israel que não vieram a crer no Senhor Jesus e o levantamento são aqueles que por crerem em Jesus serão levantados [salvos] e o "... alvo de contradição." é exatamente isso, contradição entre os que não creram. (Is 7:14).¹

O próximo verso (35) que fala que "[...] uma espada traspassará a tua própria alma [...]" fala do sofrimento de Maria² com todas as provações que Jesus enfrentou (Lc 4:29, Mt 12:46, Jo 19:26)³.

Pulando a parte que fala da profetiza Ana, no livro de Lucas, vamos para o retorno a Nazaré. Lucas conta duas histórias sobre Jesus antes da pregação de João Batista (Lc 3:1-9), um breve relato da chegada a Nazaré (v.39) e que Jesus crescia com muita sabedoria (v.40). Como Mateus não fala da visita ao templo e nem Lucas fala da visita dos magos, alguns céticos gostam de apontar essa falha com sendo um erro, só que o objetivo de nenhum deles foi contar detalhe por detalhe, até porque ficaria um livro imenso. Mas então como conciliar as duas partes? Eu acredito que Mateus 2 dos versos 1 até o 23 foram eventos que ocorreram entre Lucas 2 versos 38 a 39. Tem um artigo da Apologetics Press que trata desse caso e você pode acessá-lo clicando aqui.

Então voltemos para Mateus 2. Já falei dos magos e dos pastores e então agora vamos pro Egito. Então um ano de Jeová aparece em Sonho para José [ rápido break para curiosidades: O nome José em Grego é Ἰωσὴφ que se pronuncia Iósef, em Inglês [que é derivado do Latin que deriva do Grego] é Joseph lê-se djô-zef. E no Hebraico também se lê Iósef, porém a letra em Hb. é o Y (yosef) de Yoda יוֹסֵף (essa última pequena letrinha). ] voltando ao Sonho de Iosef, digo José. O anjo aparece para José dizendo para que ele e sua amada família partam para o Egito, pois Herodes está tentando matar o pequeno Jesus [ outro break para falar de Jesus, que em Grego é Ἰησοῦς Ieçus que também é a transliteração do Hb. pro Grego do nome de Josué. Josué em Hb. é Yehoshua, logo Jesus em Hb. é Yeshoshua, agora pesquise aí o porquê de Jesus ser chamado Jesus e Josué Josué se ambos tem o mesmo nome. ]

Então eles foram para o Egito. Eu disse que os pais de Jesus eram pobres; à luz de Lc 2:24. Essa é a interpretação 100% textual (ou seja, sem levar em consideração influências externas). Por que digo isto, pois alguns pastores já me falaram que Jesus era o próprio cordeiro, por isso da mudança no sacrifício, eu tentei argumentar que estava fazendo uma interpretação textual fidedigna, ou seja, o que o texto está falando. Agora vamos para outro ponto de discussão: se eles eram pobres como foram para o Egito. Eu já li sobre teorias de que o ouro que os magos trouxeram, eram a fonte da renda que eles usaram, mas claro, isso é uma teoria, não posso, aliás, ninguém pode afirmar nada pois não há relato bíblico nem histórico [achados] que suportem essa ou outra afirmação. Mas eu acho que isso é bem provável. Interessante aqui é que eu usei Eu + Acho do verbo achar que dentre seus vários significados, em particular aqui quer dizer ter a impressão ou opinião; considerar, em outras palavras, não afirmo mas acredito que sim, eles usaram o ouro para se manterem no Egito.

Tempos depois, um anjo do Senhor aparece novamente para José e lhe diz que Herodes morreu e que era pra ele voltar pra Israel porque quem queria tirar a vida de Jesus já morreu. E novamente por divina advertência, sabendo que Arquelau (filho de Herodes) lá reinava ele foi para Nazaré para que se cumprisse uma profecia.

De volta para Lucas. Já tendo voltado do Egito e estando em Nazaré, Jesus já com 12 anos de idade, eles então vão Jerusalém para a Festa da Páscoa, vale aqui uma nota. Não estamos falando da Páscoa que celebramos em Abril que tem ovinhos e tudo mais. A Festa da Páscoa a que o texto se refere tem outro significado, a Páscoa aqui se refere a saída do povo de Israel do Egito. Na décima e última praga Jeová matou todos os primogênitos do Egito (Ex 12:12) exceto os dos hebreus, mas para isso Deus falou para eles teriam que passar sangue de cordeiro na verga da porta, assim o SENHOR não ferirá a casa em que tiver o sangue do cordeiro. A palavra Páscoa vem do Grego πάσχα (pascha) que por sua vez é uma transliteração do Hb. פֶסַח (pesach). É mais ou menos assim o mistério, em Ex 12:13 Deus diz que quando visse o sangue iria passar direto (em Inglês pass over), ou seja, não iria entrar na casa para matar o primogênito. Então "passar sobre voz" (ARA) vem do verbo em Hb.פָסַח (pacach).

Versos 41-52 conta a famosa história de Jesus no meio dos doutores. Esses entendidos na lei se admiraram com a sabedoria de Jesus, aqui não tem muito mistério, mas queria ir direto pro verso 51 onde está escrito "[...] sua mãe, porém, guardava todas estas coisas no coração." Maria falou isso pois quando eles falaram pra Jesus "Oh Jesus, a gente tava preocupado procurando você, e você aqui no meio desse monte de gente, por que fez isso?" e Jesus respondeu "oxi por que tava me procurando? Não sabia que eu precisava tá na casa do meu Pai?" (v. 49), Maria nem José entenderam o que Jesus quis dizer com isso (v. 50).



¹Benson, Ellicott
²Ellicott, Expositor's Greek, Barne's
³Ellicott